“O que mais me chamou a atenção foi o fato de ser um dia de outubro atipicamente Cavok”. Com essas palavras, o Coronel Aviador Marcelo Gobett Cardoso nos conta um pouco da experiência em ser um dos doze pilotos da Esquadrilha da Fumaça a participar da quebra do recorde mundial, utilizando um termo da aviação para se referir a um céu com boas condições de visibilidade e teto das nuvens. Há trezes anos, no dia 29 de outubro de 2006, a Esquadrilha da Fumaça quebrou pela terceira vez o recorde mundial de número de aeronaves voando, simultaneamente, em formação e no dorso (de cabeça para baixo). O feito foi assistido por cerca de 60.000 pessoas na Academia da Força Aérea e homologado pelo Guinness World Record. Os dois recordes anteriores também pertencem a Esquadrilha da Fumaça, sendo que o primeiro feito ocorreu com 10 aeronaves em 1996 e o segundo em 2002, com 11 aeronaves durante as comemorações de 50 anos do Esquadrão. A data escolhida para o terceiro recorde não foi por acaso: naquela mesma semana a Força Aérea Brasileira comemorava o centenário do primeiro voo com o 14-Bis realizado pelo brasileiro Alberto Santos Dumont, em 1906, na capital francesa, Paris. Apesar do aumento de apenas uma aeronave na formação, a manobra exigiu muito mais do time, pois foi formada mais uma linha de aeronaves (em relação ao recorde anterior) T-27 Tucano. Conforme explica o Coronel Gobett, que voou na posição #7 durante a manobra, a técnica foi a mesma empregada no recorde anterior, “mas os parâmetros foram diferentes para que os aviões da última linha tivessem energia e manobrabilidade suficientes para manterem a velocidade e posição”. Explica que um dos pontos críticos da manobra foi a transição do voo normal para o voo invertido por meio de um “meio-looping” para chegarem à posição para o recorde. “A margem de erro era menor e era necessário um trabalho mais preciso nos comandos e motor, por isso, a maior exigência nos treinamentos”, completa o Coronel. Curiosamente, ele havia saído três anos antes do efetivo da Esquadrilha da Fumaça, que possuía 11 pilotos, e foi convidado para ser o 12º exclusivamente para a nova marca. Quem estava na última linha de aeronaves era o Coronel Aviador Ricardo Beltran Crespo, na posição #12, fechando o grupo de aeronaves para o recorde mundial. Conta-nos que apesar de todo o profissionalismo, técnica treinada e doutrina durante o voo, após o pouso, foi tomado pela emoção. “Confesso que, após o corte do motor e ao abrir o canopy do Tucano, toda a alegria e vibração daquele imenso público me contagiaram. O ser humano em mim, enfim, simplesmente chorou de gratidão e emoção”. Apesar das suas 276 demonstrações realizadas durante os anos de 2003 e 2006, esse voo, em particular, marcou a sua vida. “Por aquele momento eternizado, agradeço aos meus 11 amigos que dividiram comigo aquele espaço aéreo durante os 30 segundos daquele voo. Muito obrigado aos pilotos Fumaceiros, Anjos da Guarda e equipes de solo que viabilizaram esse recorde com muito carinho, hoje eternizado em nossas vidas”. Apesar da homologação no mesmo dia, apenas em 2017 é que a Esquadrilha da Fumaça recebeu o certificado pelas mãos do diretor do Guinness na América Latina, Carlos Martínez. Na ocasião, relatou a sua felicidade de poder conhecer de perto a equipe e parabenizar pelo recorde. “É impressionante e espetacular o que a equipe fez em 2006 de voar, simultaneamente, com doze aviões em voo invertido”. Passados 13 anos após o recorde com as doze aeronaves, nenhum outro Esquadrão no mundo bateu tal marca.