A educação é um processo longo que dura enquanto durar uma vida, tem vários objetivos, mas gosto de ressaltar três: o acúmulo de conhecimento, o estabelecimento de padrões de comportamento e a interação com o mundo que nos cerca.
Um artigo não pode ser capaz, por si só, de mudar a maneira de encarar a vida, mas o Felipe garante que sim.
Felipe é um sobrinho que outro dia me enviou uma mensagem eletrônica onde constavam apenas três palavras: vai trabalhar, tio!
O texto que se segue é minha resposta ao sobrinho.
Grande Fê!
Gostei da sua mensagem: "Vai trabalhar, tio!"
Pensei sobre o que você escreveu e tenho que admitir: já faz um bom tempo que eu quase não trabalho.
Vou explicar pra você.
Houve um tempo em que eu ficava louco, alucinado atrás de tudo querendo agarrar o mundo com os braços e pernas. Resumindo, fazia de tudo pra dar cabo de todo o trabalho que eu tinha pra fazer.
Chegava em casa exausto.
Sempre tive basicamente duas atividades: voar e cuidar de muita papelada burocrática.
O vôo me tomava tempo. Tinha que planejar tudo, estabelecer a melhor rota, verificar a meteorologia, tinha que conferir a relação de passageiros e resolver problemas de última hora. O vôo em si muitas vezes não era uma maravilha. Nem sempre o céu era de brigadeiro e tive que enfrentar desconforto e chacoalhação de muitas tempestades. Alguns vôos não aconteciam na hora que eu queria e tinha que acordar de madrugada ou pousar muito tarde da noite. Depois dos vôos tinha relatório pra fazer, ficha de avaliação pra preencher, detalhes do desempenho e panes pra discutir com os mecânicos.
Aparentemente muito chato.
Só que por mais incrível que possa parecer eu gostava, sempre gostei disso tudo. Voar sempre me deu muito prazer e as picuinhas que sempre existem eu tirava de letra. Depois de algum vôo, qualquer que fosse, me sentia leve, com a alma lavada, como se fosse um momento de laser. Aí eu tinha que encarar toda aquela apurrinhação de burocracia.
Resolvi então dividir o que eu ganhava em dois pedaços. Uma parte eu chamei de salário, que era pra pagar pelas coisas chatas que eu fazia. A outra demorou um pouco pra encontrar um nome, mas resolvi chamar de patrocínio. Achei interessante ter um patrocínio pra custear meu hobby. Gostei de chamar de hobby, porque a maioria das pessoas que tem um trata tudo o que envolve seu hobby de forma muito mais atenciosa e cuidadosa que várias pessoas que simplesmente trabalham. Lêem tudo, sabem tudo, dedicam-se e procuram se inteirar de todas as novidades, enfim, são mais profissionais que muitos que se dizem profissionais. O vôo passou a ser um hobby. Tanta gente tem patrocínio pra isso ou aquilo, porque eu não teria o meu?
Quando dividi o que ganhava entre "salário" e "patrocínio" tentei achar uma equação onde eu pudesse saber o quanto eu recebia por minhas atividades. Fui pela lógica e usei o fator "Tempo Gasto em Cada Atividade" para determinar quais eram meus rendimentos em cada uma delas.
Em pouco tempo descobri que usei um critério lógico, mas totalmente injusto. Descobri que fazia muito mais coisas chatas que prazerosas pra pagar minhas contas. Decidi então fazer uma adaptação e no lugar de "Tempo Gasto em Cada Atividade", troquei para "Nível de Prazer Versus Arrecadação". Começou a ficar interessante. Meu hobby passou a pagar mais contas que o meu trabalho.
Ainda assim, não me pareceu um bom critério, porque eu quase trabalhava de graça.
A Esquadrilha da Fumaça foi um divisor de águas. Voar e trabalhar num ambiente onde todos, desde o atencioso pessoal da administração, passando pelos competentes mecânicos e chegando aos pilotos, passavam por um rígido processo de seleção, era muito gratificante. A equipe estava sempre completamente sintonizada em dar o máximo brilho às nossas apresentações. Colocar em uma equipe pessoas comprometidas com a missão é a garantia do sucesso! Naquela época, meus ganhos não mudaram nada, mas meu salário diminuiu drasticamente a partir do momento em que resolvi encarar praticamente tudo o que eu fazia como hobby. Sobrou muito pouco pro trabalho, mas fiz questão de manter, porque estou convicto de que todo mundo tem que ter um. Afinal, tem um ditado que diz que o trabalho enobrece o homem. Eu continuava tendo o meu, mas não representava quase nada do que recebia no final do mês.
Meu hobby passou a ser voar e divulgar a Esquadrilha da Fumaça. Não tinha hora pra chegar, nem hora pra sair. Sua tia ficava uma arara, mas sabe como é, a gente se envolve demais com um hobby.
Isso tudo o que eu descrevi, fiz em segredo. Ninguém sabia de nada. Vi que as coisas estavam começando a dar certo quando um colega da Esquadrilha da Fumaça me perguntou se eu não relaxava e porque trabalhava tanto. Ri por dentro. Ele não sabia que aquilo era hobby. Estava me divertindo mais que qualquer um lá. Numa outra ocasião, durante um final de semana no Guarujá, estava conversando com o Pedrão sobre trabalho que falou o seguinte sobre minhas atividades:
- ...mas você fala isso porque gosta do que faz. Isso não é trabalho.
Gelei. O cara quase descobriu, mas eu deixei pra lá e mudei de assunto.
Esse papo de hobby me fez muito bem e eu comecei a pensar no que me dava tanto prazer. Descobri que tentava encontrar a tal da inatingível perfeição. No vôo, não precisava executar muito bem uma manobra complicada, bastava um pouso bem feito ou uma simples curva onde eu encontrasse a inclinação exata e conseguia chegar precisamente onde eu tinha planejado, sem ter que variar nenhum comando. Como relações públicas, gostava de perceber que a equipe de reportagem tinha captado o nosso espírito e passado para as pessoas como era o nosso trabalho. Assistir a um Globo Repórter, ou ler um informativo de aeroclube que tratavam de forma transparente o que fazíamos, representava exatamente a mesma satisfação. Coisas banais, mas que, por uma razão que nunca vou entender, me deixavam muito bem sempre que conseguia fazer bem feito.
Minha fórmula secreta, que eu só digo para as pessoas que eu realmente gosto, e você é uma delas, é tentar encontrar pequenos detalhes que me dêem prazer nas coisas que faço. Quando você abre os olhos, descobre que tudo foi feito com satisfação e você não trabalhou. Você se divertiu e simplesmente descobriu como tornar sua vida num grande hobby. Não precisa ser um vôo, pode ser qualquer coisa. Simplificando: faça o que gosta ou aprenda a gostar do que faz.
Se você encontrar pessoas felizes com a vida, seguindo para suas atividades com um largo sorriso no rosto, é muito provável que ele esteja com pressa de chegar ao "local onde coordena as atividades que envolvem seu hobby". Tem gente que chama de "local de trabalho". Não, o cara não é maluco. Afinal, quem é o maluco nessa história toda? Quem sai de casa carrancudo e reclamando de tudo ou quem sai feliz?
Espero que encontre um bom hobby pra você e nunca tenha que trabalhar. Se conseguir isso, é possível que quando um dia as pessoas disserem pra você que realizou um "bom trabalho", só você e eu saberemos que não é nada disso. É hobby. O resultado não é salário, é patrocínio. A propósito, não espere reconhecimento. Por ser hobby, quem tem que gostar é você mesmo. Tem gente que vai viver uma vida inteira sem jamais entender isso. Descubra o seu hobby numa atividade que lhe dê muito prazer e guarde segredo. Dedique-se de corpo e alma que naturalmente as coisas vão começar a se encaixar.
Um grande abraço,
Do seu tio Ruy Flemming
* Ruy Flemming foi piloto da Esquadrilha da Fumaça e seu perfil pode ser acessado nesta página . Este texto foi publicado com autorização do autor


